99% + 1%: O Próximo Passo da Revolução Colaborativa: Tatiana Leite at TEDxJardimBotânico

99% + 1%: O Próximo Passo da Revolução Colaborativa: Tatiana Leite at TEDxJardimBotânico

 

 

Tradutor: Leonardo Silva Revisor: Ruy Lopes Pereira A primeira coisa que me disseram quando eu aceitei vir falar aqui hoje é que os primeiros 40 segundos da palestra eram os mais importantes de todos. Na hora, me vieram algumas imagens de eu dançando, pensando num “flash mob”, cantando, fazendo malabares. E claro que, cinco segundos depois, eu pensei em desistir porque, como vocês podem perceber, o palco não é exatamente o meu ambiente de conforto, e eu sou incapaz de, no primeiro minuto de uma apresentação, produzir qualquer coisa relevante. Eu preciso desse tempo pra me acalmar (Membro da plateia diz algo) Tatiana Leite: Obrigada. Esse relógio não ajuda muito. Então, eu só me coloco em situações como essa quando ou eu sou obrigada, como naquelas torturas do colégio; ou quando o tema sobre o qual eu tenho a oportunidade de falar é tão maior que eu, tão mais importante do que o meu medo de me expor e pagar mico e esse mico ser espalhado on-line, como no TED…

E esse é o motivo de eu estar aqui hoje. O motivo de eu estar aqui hoje é falar sobre um tema que me faz levantar da cama todos os dias, há mais de um ano, desde que eu abandonei uma carreira numa grande empresa, pra empreender. Eu vim falar sobre uma revolução colaborativa… tem gente me mandando uns bilhetes aqui… uma revolução colaborativa, que está mudando de forma estrutural, irreversível e inevitável a forma como as pessoas se relacionam, aprendem, produzem e consomem, uma revolução que eu tenho muita clareza do impacto positivo que ela pode gerar pra o mundo inteiro. Tenho a sensação de que a maioria das pessoas ainda não se deu conta dela e tenho a convicção de que a gente pode não só acelerá-la no Brasil, mas a gente pode tornar, juntos, essa nova dinâmica o grande legado para o país em 2016.

Essa revolução, como a maioria das revoluções, surge de uma consciência pós-crise, quando fica tão evidente que os modelos atuais já não funcionam mais pra ninguém. E, depois das crises financeiras, das ameaças climáticas, a gente começou a viver uma crise de valores, que deixa tão claro que essa sociedade baseada na ganância, na escassez, na competição, não tem futuro, pra ninguém. Nem os poucos que ganhavam com essa dinâmica acreditam mais nela.

A fragilidade dela está muito clara, e a urgência de novos modelos também está muito clara. Agora, o lindo disso é que essa consciência pós-crise veio acompanhada de uma evolução tecnológica, de um barateamento tecnológico, e da expansão da internet, que permitiu que pessoas com valores, interesses e insatisfações em comum se unissem pra propor e adotar novas soluções. E aí, a gente vê o nascimento ou melhor, a configuração, da geração G, de “generosidade”, não de “ganância”, uma geração que não tem limite de idade. São jovens de coração, criativos, inteligentes, empreendedores; não empreendedores em negócios, empreendedores na vida; não conformistas, do bem, pessoas que estão em busca de um propósito e que atrelam esse propósito, na maioria das vezes, a ajudar o outro. Essa tela traz uma imagem da palestra do Mark Worden, num piquenique do ano passado, em que ele apresenta essa pesquisa que ele fez e que descobriu que 84% das pessoas no mundo estão em busca de um propósito, ativamente. E o estudo está totalmente disponível on-line, é gratuito, e, ao clicar, você vê que, no Brasil, esse número sobre pra 94%.

Outra coisa linda que ele conta na palestra é que existem motivos biológicos pra isso. Quando a gente ajuda alguém, tem um hormônio, que é liberado no nosso cérebro, que é o mesmo hormônio que é liberado após o orgasmo. Então, a gente brinca que é literalmente um tesão colaborar e ajudar o outro. Então, a gente está falando de pessoas que, por questões sociais e biológicas, querem fazer a diferença no mundo e que, por questões contextuais e tecnológicas, pela primeira vez podem, em grande escala. Esse é um mapa antigo; antigo é hilário, ele tem um ano, mas com certeza já mudou demais; das principais ferramentas de “crowdsourcing”, ou colaboração em massa, do mundo, nas suas diversas modalidades. Então, são iniciativas que facilitam que as pessoas se unam pra financiar um projeto em que elas acreditam, pra idealizar uma solução pra algum problema social, pra mobilizar pessoas por uma causa.

E, quando os custos da colaboração caem tanto, quando isso fica tão mais fácil, essas iniciativas se multiplicam pelo mundo inteiro porque, além de elas serem inteligentes e “ganha-ganha”, gerarem valor compartilhado, elas geram uma sensação gratificante em todo mundo que participa. E aí, a gente começa a concriar uma nova economia, ou “wikinomia”, uma economia, como a gente gosta de dizer, que é feita de negócios com fins positivos e, muitas vezes, meios lucrativos; uma economia que é baseada na cultura do cuidado, da colaboração e do compartilhamento, hábitos antigos que, agora, a gente resgata em formatos ainda mais interessantes e numa escala antes inimaginável; uma economia que, como a Rachel Botsman, que é uma das maiores especialistas no assunto, divide, tem três principais setores: o primeiro, de produtos e serviços compartilhados, bicicletas compartilhadas, carros compartilhados.

A gente muda a nossa relação com a propriedade: a gente precisa possuir, ou a gente precisa acessar o benefício de um bem? Outro setor dessa nova economia são mercados de redistribuição, que permitem que pessoas aluguem bens pra outras que precisam do acesso ao benefício. Um exemplo clássico é o de uma furadeira, que você compra e usa, na sua vida inteira, por 14 minutos. Então, se você pode alugá-la, gerando renda e, ainda, alguém alugá-la de você por um preço mais barato do que compra, você gera economia para os dois e você gera um benefício ecológico porque você aumenta o ciclo de vida dos produtos.

O terceiro setor são iniciativas que fomentam um estilo de vida colaborativo. E tem “cases” incríveis; a minha vontade é ficar a semana inteira, mesmo no palco, nervosa, só falando desses cases. Mas um dos que mais me intriga é o CouchSurfing, uma comunidade de milhões de pessoas que cedem seus sofás, gratuitamente, pra viajantes que resolvem visitar suas cidades e que ficam em sofás de estranhos, de graça, quando visitam suas cidades. Confesso que a primeira vez que eu ouvi falar nisso, eu falei: “Caraca, eu nunca ficaria no sofá de um estranho. Vão roubar meu rim. Sei lá.” (Risos) E a verdade é que a taxa de sucesso e de satisfação desse site é de 99%, e 1% tem motivos banais, de atraso ou de desorganização. O lindo dessa nova economia, uma das coisas lindas, acho que “lindo” é uma palavra que eu mais falo aqui; é que a gente volta a conviver, a gente volta a confiar um no outro. Outro exemplo de dinâmicas que promovem… Ih, meu Deus, deu branco… que promovem o estilo de vida colaborativo são os sites de “crowdfunding”.

Você pode até não estar preparado pra ficar no sofá de um estranho, mas será que você não está preparado pra colaborar com R$ 30, pra um projeto em que você acredita, e ainda ganhar uma recompensa em troca? Essa é a dinâmica dos maiores sites de crowdfunding do mundo, e o maior deles é o Kickstarter, que, sozinho, já mobilizou mais de US$ 250 milhões pra projetos criativos. Já tirou da gaveta mais de 20 mil projetos. A cada vez que eu olho esses números, eles crescem absurdamente, com a colaboração de mais de 2 milhões de pessoas. Esse exemplo era pra colaborar pra produção de um game. O dono do projeto estava pedindo R$ 400 mil e arrecadou R$ 3,3 milhões, de 87 mil pessoas. O primeiro milhão veio em oito horas. É claro que isso é um caso atípico, mas mostra o poder dessa dinâmica. E alguém aqui acha que as pessoas colaboraram porque: “Tadinho, ele precisava de dinheiro”? Colaboração não é sobre carência de quem está propondo a mobilização. É sobre a potência desses encontros de pessoas com interesses em comum.

E não é uma moda. Já movimenta US$ 110 bilhões e todas as pesquisas indicam que esse é o futuro. E aí, quando a gente vê a ganância cedendo espaço pra generosidade, como nos negócios sociais; a posse pra o acesso, como em todos os mercados de compartilhamento; o controle pra participação, como as dinâmicas de concriação; a competição pra cooperação, como as plataformas de crowdfunding do Brasil fazem hoje, se unindo pra construir uma cultura, a gente percebe que a gente está vivendo uma nova era, muito mais do que uma nova economia, uma era em que, pra alguém ganhar, ninguém precisa perder, e em que tudo é possível quando existe interesse e esforço coletivos; uma era que vai muito além de um pensamento baseado na escassez dos recursos finitos e que entende e que belamente trabalha com os recursos abundantes que não só não se esgotam, como se multiplicam com o uso: a criatividade, o conhecimento, a rede, as tecnologias. E aí, nesse contexto, o Brasil tem tudo pra ser referência mundial.

A gente é um povo extremamente criativo, solidário, relacional, conectado. A gente encabeça todas as métricas sociais de redes sociais do mundo. E, queira ou não, já vendo o que está acontecendo lá fora, essa dinâmica vai chegar aqui, e ela já está chegando; em passos lentos, mas ela está chegando. Mas eu vim falar de coisas na medida do impossível. Então, a minha proposta, o meu sonho, é que a gente não sente e espere essa dinâmica chegar, porque ela vai ser bem recebida; já está sendo. A minha proposta é que a colaboração passe a fazer parte do DNA, da identidade do brasileiro; que esse seja o grande legado que a gente vai deixar já pra 2016. As vantagens dessa nova dinâmica são inquestionáveis, tanto pra gerar riqueza como pra gerar valores de cidadania, numa sociedade mais saudável.

Então, por que não exportar tecnologias colaborativas, além da imagem de futebol e carnaval que a gente tem? E a única forma, na nossa visão, de fazer com que isso aconteça nessa intensidade, nessa velocidade, é unir todas as esferas sociais pra derrubar as barreiras de engajamento nessa nova dinâmica, tornar a colaboração tão fácil e tão sexy quanto o hábito de compra. E uma das principais barreiras que a gente encontra nesse discurso, na verdade, está dentro de cada um de nós, que é a descrença nas instituições. As pessoas falam: “Pô, logo agora que a gente pode, como sociedade, se unir nesse movimento ‘power to the people’, que surge com todas as ferramentas de crowdsourcing? Logo agora que a gente não precisa de empresa e de governo pra gerar transformação, por que eu vou me unir a eles? No fundo, no fundo, é tudo farinha do mesmo saco.

Tudo quer dinheiro, ganância, não está nem aí pra você.” Tem esse discurso, e eu entendo de onde vem esse discurso, mas eu também vim de um modelo desses, e não é exatamente isso. Eu gosto de lembrar que essas pessoas que a gente tanto critica são, na verdade, muito mais parecidas com a gente do que a gente gostaria. Eu gosto de pensar que elas são pessoas de bem, em “piloto automático”, que não se dão conta das suas ações e omissões na vida dos outros, na maioria das vezes, gente. É claro que tem uns filhos da puta que não têm jeito, mas assim…

Na maioria das vezes. (Aplausos) Agora, voltando pra maioria, é importante lembrar de como essas pessoas, como nós formos criados. A gente foi criado numa sociedade que acredita na competição como único combustível pra evolução, onde as pessoas se tornam sim mais individualistas, preocupadas com aquilo que é só delas. Um exemplo, emblemático e bobo, mas emblemático, disso são os jogos mais vendidos no mundo: War e Banco Imobiliário. A gente cresceu brincando com isso. No Banco Imobiliário, está nas regras: o objetivo é falir o adversário.

Então, vamos dar uma trégua pra essa maioria das pessoas que talvez estejam em piloto automático, é uma hipótese que eu acho que vale a pena a gente tentar; e sair de um discurso de “99% contra 1%” e ir pra um discurso de 99% mais 1%, porque esse 1% é muito poderoso. Esse 1% tem um poder de financiamento, de comunicação, de articulação que pode acelerar a adoção dessa dinâmica de forma absurda. Eu estou estourando o meu tempo, então eu vou passar. Eu ia dizer que essa palestra é imperdível sobre “open world”, do Don Tapscott, em que ele diz também que as novas instituições vão ser reformuladas com base nos novos valores, não só por benfeitoria, mas porque as pessoas são inteligentes o suficiente pra saber que essa é a única forma de ser relevante no futuro.

E aí, quando a gente permite isso, se permite pensar, a gente pode começar a sonhar que mundo seria esse onde o poder de realização das pessoas se junta ao poder de articulação e financiamento dos governos e das empresas. A gente começa a pensar que a gente devia ter um ministério da colaboração. A gente começa a pensar que os próximos ícones de negócio brasileiros poderiam surgir de editais de fomento a negócios sociais. A gente começa a pensar que os ícones do capitalismo, os bancos, poderiam se unir pra patrocinar plataformas de crowdfunding, como uma alternativa mais inteligente e sustentável ao empréstimo.

Não é tão doida essa ideia não. Se você pensar, eles mesmos propõem isso. O Itaú fala: “O mundo muda.” O Santander diz: “Vamos fazer juntos?” O Bradesco valoriza a presença e, se todos os bancos tivessem presença nesse mercado, incentivando e divulgando as possibilidades do crowdfunding, como diz o Banco do Brasil, “seria bom pra todos.” Isso também seria bom pra eles, porque resgata o propósito, que é uma das questões que mais motiva os funcionários, diminuindo o “turnover” e por aí vai. Então, pra encerrar, porque só faltam 20 segundos, eu acho que, se a melhor forma de prever o futuro é criar, eu acho que a gente tem que fazer juntos e eu acho que gente tem que fazer agora.

Obrigada. (Aplausos) (Vivas) .

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